Mostrar mensagens com a etiqueta Chico Buarque. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chico Buarque. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, dezembro 15

Já nada é sagrado

Há coisas que convém não ter como certas. Sempre entendi o perfeccionismo do Chico Buarque naquele trabalho de carpintaria chato de terminar uma música como o melhor que existe, e provavelmente é. E tinha como exemplo acabado desta prática o Vai Passar, que alia um golpe de sorte/inspiração (é possível ouvi-lo - ao golpe - aqui, para quem tenha Real Player) a muito, muito trabalho de acertar palavras, e acertar uma harmonia traiçoeira que impele a música sempre para cima. Depois de pedir ajuda a dezenas de compositores (mais que dez, pronto), a solução estava afinal em casa, e o Francis Hyme conseguiu um truque para trazer a música de volta à tónica. Mas para lá de todos estes pormenores, que na verdade nem são relevantes, está a música que tive sempre (e tenho) como o melhor samba de sempre.

De há umas semanas para cá achei que me fazia falta ouvir de chofre a obra toda da Elis Regina. Para lá de todas as maravilhas que contém, dou de caras enquanto guiava, com O Bêbado e a Equilibrista (o tema aparece em tudo o que é compilação e best of, mas embirrei sempre com este nome e nunca lhe dei atenção). Por faccioso que sou escandalizo-me logo com o plágio descarado. Em alguns momentos é possível cantar o Vai Passar por cima desta música, tal é a siamezice. Aproveito e insulto um pouco o João Bosco, autor da canção, e até o desculpabilizo um bocadinho, que imitar o Chico Buarque é apenas humano.

Só muito depois, dias depois, é que me assalta a dúvida. E se fosse o Vai Passar que se tivesse colado ao Bêbado e a Equilibrista? Uma pesquisa muito rápida e confirmam-se os maiores temores. A do Chico Buarque é de 84 e a da Elis Regina de 79. Teria havido punhais menos dolorosos, mas a verdade é que parte do génio do Vai Passar estava já inventado. Demasiado inventado.

À distância e com parcialidade já consigo relativizar tudo, e continuar a achar o Vai Passar melhor música e de uma perfeição assinalável. Quem já tentou fazer músicas sabe que haverá sempre alguém que diga 'epá isso lembra mesmo aquela música daquele outro'.


O Bêbado e a Equilibrista - Elis Regina

Vai Passar - Chico Buarque

segunda-feira, novembro 6

Finalmente 2

Houve momentos no concerto do Chico Buarque em que se sentia o público respirar fundo. Sempre que ele se enganava na letra, no tempo, numa nota, sentíamos-lhe humanidade. Para quem toca viola e procura tocar Chico Buarque, cada um destes momentos é precioso.

Numa das canções, composta pelo baixista Jorge Hélder, o Chico Buarque torna-se especialmente humano. A música, conforme se confirma pelo DVD que acompanha o Carioca, é angustiante. É um exercício rebuscado de harmonia onde é quase impossível colocar-lhe uma melodia aceitável e ainda menos uma letra. A música é, para nós que procuramos tocar canções dos outros, um troféu apetecível. Mas nem é especialmente agradável ou bem conseguida, na minha opinião. É um tipo de canção que só dá gosto a quem a toca, visto que é harmonicamente engenhosa (acontece o mesmo com o Passarim, outro troféu de quem anda a esgravatar Tom Jobim). O Chico fê-lo (colocar-lhe melodia e letra) para histérico deleite do dito baixista. Pudera. No entanto, tudo aquilo é tão difícil, que o Chico Buarque apenas apoia as mãos na guitarra enquanto canta a música. Mais um momento precioso para estes mortais que o assistem. A canção, já agora, chama-se Bolero Blues.

sábado, novembro 4

finalmente

O concerto de Chico Buarque de ontem, primeiro em Lisboa, foi praticamente tudo o que esperava. Ouvir o Carioca ao vivo confirmou-o como um disco muito bom. A ausência de tantos anos provocou inevitavelmente um concerto com muitas canções - algumas trinta - apesar de não ser extenso. Teve um pouco mais de hora e meia, soube logicamente a muito pouco. Decorreu ainda daí que todas as músicas tenham sido versões curtas de si próprias, única ponto que poderia apontar-lhe. Mas, novamente, dada a longa ausência terá sido uma escolha acertada.

Tive um inesperado golpe de sorte. Para além do Carioca, o outro disco em destaque, foi o Vida, que podia perfeitamente ser o melhor disco do Chico Buarque, caso alguém por absurdo precisasse de ordená-los. Ouvir quatro músicas de um disco que não é habitualmente tocado em concertos foi um presente simpático e, sobretudo, ouvir o Bye Bye Brasil, esse funk com a mais estranha das letras (talvez ver o filme pudesse ajudar).

E no fim, dois curtos encores de pôr a malta dos clássicos de pé, que talvez venham a ser responsáveis por encher o dia a mais que teve que ser adicionado aos concertos de Lisboa. Por mim, dia oito voltava ao Coliseu.

terça-feira, outubro 3

Brancos, Negros, etc.

Através do Glória Fácil dei com um interessante bater do pé à unanimidade do Chico Buarque, por parte do Agreste Avena:

Quando digo musicalmente branco, por oposição a negro, estou a pensar naquilo que distingue a música europeia (branca) da música africana ou mestiça com influência africana (negra). A música europeia popular ou a dita erudita (pelo menos até Wagner, que depois de Schönberg é o desastre) é essencialmente a melodia com uma propensão irritante para a tonalidade. Já a música africana é feita de harmonias e ritmos, mesmo nas suas formas mais básicas a música negra é na sua essência muito mais complexa do que a branca, por mais que esta tente disfarçar com orquestrações elaboradas (só possíveis graças à simplicidade intrínseca da música europeia).

Não vale a pena ir por todo o post adentro, embora seja agradável. Mas pôr o Chico Buarque no branco só por ser um académico, e obessivo e por não gostar de estar em palcos e tudo, parece-me excessivo. O Chico Buarque é um daqueles humoristas que retiram os tiques às pessoas. É mimético com mulheres, negros, brasileiros, europeus, brancos, Pixinguinhas, Tom Jobins, argentinos, paulistas, cariocas, baianos, etc. É um curioso e estudou muito sozinho.

Mas o que me indigna neste bocadinho, agora que já defendi a unanimidade do Chico Buarque, é a injustiça com a música europeia e a confusão com a africana. Sobretudo eu, que fui mais do que uma vez injusto com os europeus, aqui mesmo no blog. Mas não podemos vir dizer que a música europeia se resume a melodia. Até porque acho que a melodia está vergonhasamente por explorar, seja em que mundo for. Mas a harmonia (perdoem o eurocentrismo) é nossa. Se há quem tenha levado a harmonia aos limites foram os europeus. De tal modo que nem pensaram em mais nada. Duvido que se encontre formas mais do que rudimentares de harmonia na música africana, se é que existe de todo (excluindo os árabes). Penso que é até de um magnífico equilíbrio os africanos terem levado o Ritmo onde levaram e os europeus a Harmonia. A melodia, num e noutro caso não a encontro espectacular.

Claro que se por música negra começarmos a entender o jazz e a bossa, então sim, a harmonia está muito desenvolvida. Mas está desenvolvida porque partiram do ponto onde os europeus a deixaram. A cada um o que é de cada um. A palavra erudita não pode ser sinónimo de música com menos mérito que a espontânea (coisa que nem existe!). Mas talvez seja isso que o Chico Buarque tem de branco. Levar a erudição e até o pedantismo à música popular. Não vejo como pode a música popular perder algo com isto.

Pode ser que com sorte o Escravisauro vos explique tudo isto tintin por tintin e ainda faça as devidas ressalvas às minhas imprecisões. Verão aí que até tenho razão.